sábado, 22 de março de 2008

O sonho

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chancede fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecemem seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta,
mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.







Clarice Lispector

sexta-feira, 21 de março de 2008

Cada ser, cada reação

"Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela,mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol."































Pablo Picasso

sábado, 1 de março de 2008

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado''
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado, me fazendo ratificar a opnião de que o amor é o mais importante da vida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

The woman

Hand in the chin, she stops, musing.

Greek beauty, dressed with diligence, tall, thin. Wavy hair, wore in a careless ponytail.
As I walk by in the morning, I see her in the garden, at the entrance of the majestic house. Her looks call my attention. I almost go back to see her once more.

I keep on going my way, though…(I can’t be late!)

Wise, she ponders and meditates.

My memory captures the rosé harmony: skin and clothes. My brain registers the still, unexpected, in luminous winter morning.

The cars go fast by Cosme Velho neighborhood... Impatient, at the red sign, they stop even they dislike it.

Not even this morning frisson bothers her, imperturbable audience that she is.

Finally, I arrive at my English course. During the class, I can’t forget about the sight of that woman. Her classical image had impregnated me. I catch myself wandering who would have made her magnificent outfit...

And the fabric, muslin? Or maybe some sort of satin, for the sensual effect of the draperies, protecting her body from the curious passersby as if she was a vestal...

On my way back, I find her still in the same position. Nothing disturbs her: impassible, she keeps musing, with a lost look in her eyes… (what/whom would she think about???)

I stop, thrilled, one more time, with the sight of that beautiful marble statue, in the garden of Leone’s auction house, waiting for a new owner...

Maria Angélica Monnerat Alves

For me, just one word : Superb!

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti,
sim, não deveríamos.

Luxo

Certa vez eu li em um livro que Luxo é poder compartilhar os momentos que você aprecia com quem você gosta- em qualquer lugar.
Outra vez li uma frase atribuída à mademoiselle Chanel que dizia: O luxo tem que ser confortável ou não é luxo.
E então pensei que os dois conceitos do que é luxo se integram.
Porque estar com quem você gosta no lugar que você quer é um luxo, mas sobretudo sinônimo daquilo que é conforto.
Esse é o meu luxo.
Logo é fato que cada um tem o seu, só não se pode esquecer é que "Luxo não é o contrário de pobreza, mas o oposto do banal." Mais uma vez, Chanel.

Gilles Lipovetsky

Por Juvenal Savian Filho


Gilles Lipovetsky, 63, é um dos mais conhecidos pensadores atuais. Professor da Universidade de Grenoble, seu pensamento tem tido certa fecundidade não apenas no mundo acadêmico ou nos círculos filosóficos, mas também em outros universos, como o das artes, da educação, da psicologia, da política...e...do luxo. O interesse pelo mundo do luxo e da moda tem sido a prova de que inúmeros e inusitados elementos da experiência humana fornecem a Gilles Lipovetsky ocasião para aprofundar o sentido dessa experiência. Nesse trabalho de aprofundamento, não há desprezo pelo cotidiano nem pelo que parece fútil ou frívolo. Ao contrário, procurando redefinir o individualismo, Gilles Lipovetsky acrescenta novas misturas à palheta utilizada pelas filosofias atuais para pintar o indivíduo, como se pode perceber pela entrevista bem humorada que ele gentil e muito simpaticamente concedeu por telefone à CULT.

CULT - Como o senhor chegou ao universo do luxo como domínio de pesquisa filosófica? Poderia nos contar um pouco do trajeto de sua formação?

GILLES LIPOVETSKY - Tenho uma formação de filósofo; estudei filosofia na Sorbonne e depois ensinei muitos anos a filosofia mais tradicional, quer dizer, a história da filosofia. Autores como Platão, Kant, Hegel etc. Meus interesses voltavam-se, sobretudo, para a compreensão da história e da vida social, ligados, provavelmente, à minha formação marxista. Meus interesses se fixavam na observação do mundo e suas transformações. Distanciei-me, porém, do marxismo, sobretudo no que dizia respeito à noção de alienação, pois toda cultura de massas era vista como algo alienado. Interessei-me, então, pelas questões que geralmente são desprezadas pelos filósofos. Platão, por exemplo, não gosta da caverna. Para ele, é necessário sair para contemplar a beleza das idéias eternas, inteligíveis. Ao contrário, eu me interesso mais pela caverna; pretendo iluminá-la, sem precisar sair dela. Foi assim que me interessei pelos objetos mais desprezíveis para a maioria dos filósofos, como a publicidade, o lazer, o consumo, a moda, a maquiagem. O luxo, então, foi uma continuidade de tudo isso. Mas não falo apenas segundo um interesse pessoal, porque a moda ou o luxo não me interessam senão ao espírito; parece-me que tudo isso exprime muitas coisas de nossa época, da cultura, da psicologia e da natureza de nossa sociedade.

CULT - Mas, ao mesmo tempo, o senhor não ficou desgostoso com esse universo...

G.L. - Bem... Desgostoso não...

CULT - É que o senhor vinha de uma formação marxista, e muitos marxistas são radicais com respeito à condenação desse gênero de interesse...

G.L. - Eles têm um reflexo moral inteiramente justo, porque é verdade que há algo de escandaloso no luxo. Eu li, por exemplo, recentemente, que está retornando, na moda masculina, a utilização da pele de crocodilo. Em algumas marcas, uma jaqueta masculina chega a custar 80 mil dólares. Quando vemos algo assim, é difícil - como você diz - não ficar desgostoso. Porém, o que me interessa mais é o luxo acessível, não um luxo Rolls-Royce...Quis, de início, saber por que a indústria do luxo, no momento da globalização, mudou seus rumos. Hoje, mais da metade dos europeus compra ao menos uma marca de luxo por ano; tem-se tornado um fenômeno democrático. E não se trata de luxo que escandaliza. Comprar um vidro de perfume, um batom, uma bolsa de mil ou 2 mil dólares não é algo escandaloso. Talvez seja ridículo, mas não escandaloso. Esse é o luxo que me interessa, assim como também tenho interesse pelas técnicas de marketing, os novos modelos de lojas, pois isso toca a todos nós; trata-se de um fenômeno estético de nosso mundo. Se vemos as boutiques, nas cidades, não podemos negar que são belas. Isso é diferente de uma Daslu, por exemplo. Daslu é algo mais escandaloso...Pode-se chegar lá de helicóptero...Há favelas em volta...É chocante. Daslu é quase uma provocação. Mas, nas cidades, quando as marcas de luxo constroem grandes prédios, fazem belas lojas etc., as pessoas entram, vão ver, pois os espaços são abertos a todo mundo. Trata-se de um luxo acessível, relativamente democrático. O outro luxo, voltado para milionários, não me interessa. Esse é um universo que eu não conheço. Numa palavra, o que me interessa é o fenômeno da democratização do luxo.

CULT - Mas seria desejável tornar o luxo mais democrático? O que o luxo diz sobre a natureza humana?

G.L. - Já Shakespeare notava que, se acabarmos com os objetos de luxo, não teremos nada além de animalidade. O que o luxo diz é que o homem não se contenta apenas com a satisfação de suas necessidades naturais. Há, acima de tudo, uma busca de excesso, de ultrapassamento da simples naturalidade. Além disso, o luxo não é simplesmente uma demonstração de riqueza. Pode o ser, mas esse não parece o seu sentido. Há uma busca de beleza no luxo; uma busca de sensualidade. Há um gosto por tudo o que é refinado. Isso exprime, ao mesmo tempo, a competição entre os homens - é por isso que se trata de algo universal, pois os homens, desde sempre, rivalizaram por riquezas. Haveria, ainda, uma questão muito delicada: a arte faz parte do luxo ou não? Penso que sim. Costumamos deixar isso de lado, porque a arte tem uma dimensão espiritual, com referências ao sagrado, à Beleza, mas, se consideramos o preço de uma obra de arte, vemos que estamos muito próximos de um objeto de luxo. Essa é a razão pela qual as pessoas mais ricas, hoje, estão se tornando colecionadoras de arte contemporânea. Creio que o luxo testemunha o fato de o homem, como dizia Bataille, ser negatividade: ele não se satisfaz com o que tem, mas quer sempre mais.

CULT - Mas um objeto de luxo é necessariamente belo? Um artista não pode desejar o feio?

G.L. - Se adotarmos um olhar antropológico sobre o luxo, veremos que ele não esteve sempre associado a coisas belas. Em algumas sociedades, alguns animais tinham valor especial, como os cães para os esquimós. Isso aparece como luxo, mas não se trata necessariamente de beleza. É verdade que, a partir de um certo momento, o luxo e a beleza foram ligados, mas hoje ainda há produtos de luxo que não são necessariamente belos. Por exemplo, quando viajamos em primeira classe de avião: a decoração é a mesma que a da segunda classe ou da classe econômica. O que faz, então, o produto de luxo não é necessariamente a beleza, mas o bem-estar. Para dar uma palavrinha sobre a Beleza, eu diria que, atualmente, ela se "democratizou": a maior parte das pessoas vê mais coisas belas hoje em dia (na televisão, nas revistas, na publicidade etc.); nós consumimos beleza non stop. Vemos a beleza por todos os lados; certos produtos são acessíveis quase a todo mundo, como, por exemplo, os cosméticos. Talvez não as grandes marcas, mas já faz quase um século que os cosméticos se tornaram acessíveis a praticamente todas as pessoas das sociedades desenvolvidas. Nesse contexto, há novos mercados de luxo à procura de algo que está além da simples beleza. Isso remete muito mais à sensação do que à beleza...

Juvenal Savian Filho é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP/EPM - Campus de Guarulhos

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nós humanos humanos nós seres

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humanos nós humanos humanos humanos

ser seres seres
humanos humanos humanos nós humanos

E porque tão complicados ?




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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Superinteressante informa

Esta semana comecei informada - e por prazer, vale ressaltar.

A reportagem de Capa da revista Superinteressante ( que de fato faz juízo ao nome ) já era por si só atraente: PERSONALIDADE, O QUE FAZ DE VOCÊ ASSIM?

Não esperei o momento ou sequer o local mais apropriado para dar inicío àquilo que eu costumo chamar de boa leitura (porque a vida é uma só queridos, e não sinto a mais ínfima vontade que seja de "perder tempo", - Come on baby, estou nos primórdios dos meus 17 anos de vida! ;)

E muito boa por sinal.Ratifiquei e retifiquei conceitos sobre a influência que a genética, pais e fatalmente os amigos têm sobre a formação pessoal de cada ser humano - queiramos ou não.

Primeiro: os genes

Ratifico o que sempre ouvi minha mãe dizer : A genética não influencia tanto. Não é a genética que vai fazer de nós seres com ou sem escrúpulos. Se o pai é bandido e bate na esposa, e o filho quando cresce também se torna tão mau-caráter quanto o pai, a culpa não é basicamente, totalmente, exclusiva da genética.E sim do meio. Ora, o que você queria? o filho , por natureza, se espelha no seu criador. Essa é a mais provável das explicações. Mas e quanto aos filhos que são exatamente o oposto dos pais? Bem, eles também usam os pais como "espelho" mas dessa vez daquilo que não desejam ser. Assim, quando o mesmo filho de um pai que é bandido e bate na esposa se torna um médico bem sucedido, que zela pelo bem-estar dos seus pacientes, a genética cai por terra, e entra aqui a regra de que "cada caso é um caso". É o mesmo quando pais que deram todo o suporte educacional necessário para a edificação de um bom cidadão e na verdade criam mais um dos muitos nomes do crime. Como explicar, se não havia antecedentes na família? Certamente, a resposta não está na genética.

Segundo: os pais

De acordo com as pesquisas do livro Freaknomics, realizada em 1991 com 20.000 crianças de 5ª série, cujo objetivo era relacionar o desempenho escolar da criança com o perfil dos pais, descobriu - se que boas notas na escola não se relaciona com o que os pais fazem - se mandam os filhos ler ou lêem para eles antes de dormir - mas sim com o que os pais são: se lêem para si próprios, se são bem instruídos. É meus amigos, como a frase propaganda da Livraria Cultura em SP: Ler pra ser.

Terceiro: os amigos

Eles são os que mais influenciam na formação de um ser. Segundo a Superinteressante " No livro Diga - me com quem anda... da psicóloga americana Judith Harris as relações horizontais ( existe vertical?!) dos 6 aos 16 anos são o grande definidor da personalidade adulta." Pra mim, só mais uma prova de que o homem é produto do meio.

E assim entre a nature X nurture, eu escolho a última.


Tainá Lima
;D

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Simultaneidade

- Eu amo o mundo!
Eu detesto o mundo!
Eu creio em Deus!
Deus é um absurdo!
Eu vou me matar!
Eu quero viver!

- Você é louco?

- Não, sou poeta.

Mário Quintana....

I love it!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Conclusões de Aninha

Estavam ali parados.
Marido e mulher. Esperavam o carro.
E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu.
Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra.
A mulher ouviu.
Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol,
a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.


Cora Coralina, grande poetisa...

é, talvez eu goste sim de poesia.
Mas só um pouco.
Um pouquinho assim(?!)

hahahaha

(;

Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.
Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos


Não gosto muito de poesias.
Desconheço a razão.
Mas como para tudo nesta vida há exceção,
Seja essa a minha.

=)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?



Mais uma vez, é ele.
Luis Fernando Veríssimo.
;D

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Herança Cultural

Francês.
Homossexual assumido ( e isso em fins do século XIX e início do século XX)
é considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos.
Além de diretor de cinema, foi:
dramaturdo,
cenógrafo,
ator,
escultor,
pintor,
poeta,
escritor,
e autor de uma das minhas frases preferidos:

"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez!"

Amigo de Maison Chanel, este influente e eminente ser começou a escrever aos 10 anos e aos 16 já publicava poemas de sua autoria.

Um talento, (por mais redundante que pareça o adjetivo e mesmo assim acrescento-o), foi um talento Bri.lhan.te!

E é quase absurdo pensar que um homem em apenas 74 anos de existência foi capaz de ser tanta coisa.E ser com excelência. Razão mínima que o fez perpetuar perante os séculos e o tornou assim, imortal.

Sim, falo de Jean Cocteau, o mesmo autor do filme Orfeu e do livro Os cavaleiros da távola redonda.

Pouco sei sobre ele, mas o que sei é suficiente para fazer-me admirá-lo ,não como pessoa( pois por motivos óbvios não o conheci),mas como alguém que em sua existência contribuiu para o acervo cultural que possuímos hoje.Seja este bom ou ruim, é graças a esses registros que podemos conhecer um pouco mais sobre o passado de vidas não vividas por nós.


Espero que a existência de " Jeans Cocteau's" não se restrite somente ao século passado.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Presentes de Natal

As noites de Natal existem para me mostrar que os anos têm sido arrancados das folhinhas. E me lembram de que já vou carregando, no corpo, na alma, no coração, as tatuagens do tempo.


Houve o Natal dos carneirinho manso, que meu pai me deu para ser saudade hoje.

Houve o da flauta, o do velocípede, o da bicicleta.

Depois, o das obras de Júlio Verne.

Mais adiante, o da Enciclopédia e Dicionário Internacional.

Um dia, fui visitar casa amiga.

E a empregada me anunciou:— Aí está um rapaz.

Desde então, o Natal se foi transformando em pijamas, camisas, gravatas, lenços.

Noutra visita:— Aí está um moço.

Notem que, no caso, moço é mais velho que rapaz...

Meu Natal passou a faturar abotoaduras, alfinetes de gravata, carteiras de cédulas ou de níqueis, cintos e agendas.

Agora, quando visito algum amigo, as empregadas me anunciam:— Aí está um senhor.

Quando o dono da casa é cortês, ri:— Que senhor, que nada, Maria. É o Iolando. Entra velho.


O velho em tom fraterno, remoça mais a gente. Acho horrível ser senhor.

Assim, o último Natal me deixou mágoa estranha.

Porque pessoa querida, das que sempre me presentearam no nascimento do Cristo, apareceu com uma caixinha embrulhada em papel multicolor.

Todo alegria, abri o embrulho e a caixinha.

Eram uns suspensórios!...


Nestor de Holanda




Àqueles que vierem a ler esse texto, espero que tenham desfrutado de um excelente Natal, com ou sem bons presentes...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

A mulher madura

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs.

Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia.

Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos.

Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente.

Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo.

Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar.

A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia.Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.


(15.9.85)


Affonso Romano de Sant'Anna


O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 09.





Tem gente que não só escreve, encanta.

sábado, 22 de dezembro de 2007

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."


Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".Ver é muito complicado.


Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.


William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.


Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.


Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".


Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".


A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.


Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".


Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...



O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.


Como eu gosto desse senhor chamado Rubem Alves.
Grande senhor.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Grandes coisas, grandes paixões



Nada existe de grandioso sem paixão.






(G. W. F. Hegel)



Nada mesmo.
Nada!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Porque não?!

"Ah, meu amor, não tenhas medo da carência:
ela é nosso destino maior. O amor é tão mais fatal
do que eu havia pensado, o amor é tão inerente
quanto a própria carência, e nós somos garantidos
por uma necessidade que se renovará continuamente.
O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe
da graça - que se chama paixão."
Uma vez , minha professora de Literatura confessou não gostar muito de Clarice Lispector, e foi então que por impulso de curiosidade perguntei " Porque professora?" E ela disse; " Porque ela é muito profunda, e mexe muito comigo,e não é fácil gostar dela, alguém que assim como eu ,foi criado em moldes tradicionais"
Eu entendo professora!
Se entendo...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Dias nublados

Naqueles dias amenos, em que pouco se vê os raios do Sol, certamente encobertos por nuvens que levam consigo a chuva da tarde, uma sensação de paz e equilíbrio toma conta de mim.

Um desejo abrasador de elaborar planos, metas, objetivos me sustenta com uma perspectiva de que melhorias e mudanças estão por vir, embora nesses dias nublados, a maioria dos seres esteja mais suscetível à melancolia e ao pessimismo.

O momento torna-se propício para ler um livro, e é neste livro chamado Quando Nietzsche chorou que encontro algo de minha concordância.


" (...) E disse então Lou Salomé:

- Doutor Breuer, essa hora foi curta demais. Estou ávida por mais um pouco de seu tempo. Posso caminhar com o senhor de volta ao hotel?

O convite impressionou Breuer pela ousadia, masculinidade; entretanto , dos lábios dela, soava como normal, não afetato - a forma natural como as pessoas deveriam conversar e viver . Se uma mulher aprecia a companhia de um homem, por que não lhe dar o braço e pedir para andar com ele? Contudo, que outra mulher sua conhecida teria proferido essas palavras? Estava diante de uma espécie diferente de mulher. Aquela mulher era livre!"

E quantas são, na realidade, mulheres livres?

São poucas , muito poucas, aquelas que não consideram a visão corrompida e perniciosa de uma sociedade que vê malícia em tudo que se faz.

Realmente , essas sim, são mulheres livres de sistemas e lógicas ilógicas ainda cultivados por muitos homens- e infelizmente, muitas mulheres também- que acham ações como a descrita acima "Absurdas, desonrosas e indignas de uma mulher que se respeite!"

Aos que possuem esse tipo de visão, não sinto raiva, rancor ou desprezo, sinto pena! Sim, pena. Pena por fazerem de si próprios seres tão pequenos que tornam-se ainda menores quando encontram-se ao lado de mulheres como Lou Salomé.

E olha, que a Lou Salomé é uma mulher do século XIX.

Imagine...

Think about